Os Impactos da Institucionalização na Qualidade de Vida do Idoso

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Escrito por: Cínthya Francielly Alcântara Barbosa, Raiane Alves da Cruz e Vivica Lé Sénéchal Machado
Este artigo teve sua construção realizada a partir de referenciais teóricos multidisciplinares, junto às praticas de estágio realizadas no Asilo São Vicente de Paulo (Lar Irmã Betânia) da cidade de Montes Claros - MG, com o tema voltado para a qualidade de vida dos idosos institucionalizados. Teve como objetivo geral investigar os impactos na institucionalização na qualidade de vida do idoso e, a metodologia utilizada foi a pesquisa participante, de caráter quantitativo e qualitativo.

Segundo Zimerman (2000) a velhice era vista como algo negativo e de incapacitação da população idosa. Contudo o autor vem resgatar a possibilidade de um olhar mais atento para as potencialidades e produções de elaboração subjetiva dos idosos. Considerando assim o envelhecimento como uma etapa natural da vida e que acontece de forma relativa a cada indivíduo.
Esta pesquisa buscou investigar os impactos da institucionalização na qualidade de vida dos idosos e mais especificamente, caracterizar demograficamente a população idosa do asilo; identificar as emoções presentes nos relatos dos idosos; compreender a percepção do idoso sobre a vivência da sua relação cuidador/ idoso; investigar o exercício de autonomia na realização das atividades de diária; descrever as contingências aversivas e positivas presentes na rotina dos idosos e identificar as dificuldades e/ou limitações experimentadas pelo idoso no processo de envelhecimento.
O estudo desta temática é de extrema relevância acadêmica e social para os estudantes do terceiro período de psicologia, pois aprender a compreensão que o velho tem da experiência de envelhecer dentro da instituição asilo proporciona, aos alunos, ter um olhar mais focado na real necessidade das pessoas viventes em instituições de caráter asilar.

Envelhecimento, institucionalização e qualidade de vida.

Envelhecer é uma etapa do desenvolvimento que pressupões alterações físicas, psicológicas e sociais. Estas alterações são gerais, e ocorrem de forma gradativa e natural, sendo assim, não se pode afirmar que há uma idade exata para caracterizar o velho. Como etapa do desenvolvimento, o envelhecimento é algo inevitável para os que vivem, porém os efeitos do envelhecimento podem ser reduzidos a partir de alguns fatores, tais como, “alimentação adequada, a prática de exercícios físicos, a exposição moderada ao sol, a estimulação mental, o controle do estresse, o apoio psicológico, a atitude positiva perante a vida e o envelhecimento” (ZIMERMAN, 2000, p. 21).
Independentemente dos motivos que levam à institucionalização, ela pressupõe a retirada do idoso dos grupos sociais de referência, e exige um ajustamento a uma nova cultura, agora de caráter asilar. Em seu ritmo, o velho irá reaprender a se comportar, para se incorporar ao novo grupo social (GRAEFF, 2007).
Qualidade de vida é um termo de noção extremamente humana, e está relacionada a condições, modo e estilo de vida; com as ideias de desenvolvimento sustentável e ecologia humana; e à democracia, desenvolvimento e ao campo dos direitos humanos e sociais. “Valores não matérias, como amor, liberdade, solidariedade e inserção social, realização pessoal e felicidade, compõem sua concepção” (MINAYO, HARTZ e BUSS, 2000, p. 9).

Aspectos biológicos do envelhecimento

O envelhecimento é a ultima fase do desenvolvimento humano. No processo de envelhecimento ocorrem “modificações do nível molecular ao morfológico”, tais modificações ocasionam um “declínio orgânico, aumentando a susceptibilidade e vulnerabilidade a doenças e à morte”. Neste sentido entende-se que o envelhecimento “compromete a capacidade de resposta dos indivíduos ao estresse ambiental e à manutenção da homeostasia” (GOTTLIE et al. 2007, p. 1 e 3).
Segundo Troem citado por Gottlie et al. (2007, p. 3 e 4) existem dois tipos de envelhecimento, o biológico normal que “envolve as mudanças biológicas inexoráveis e universais”, e o usual que “além destas alterações biológicas, observamos o aumento da prevalência de doenças crônicas”.
O biológico normal envolve somente características normais do processo, tais como, rugas, menopausa, cabelos brancos, perda da função renal, etc., Já no envelhecimento usual, alem das alterações biológicas “normais”, aumenta também a prevalência de doenças crônicas. “Essas doenças se originam do acúmulo de danos, ao longo da vida, oriundos, sobretudo da interação entre fatores genéticos com hábitos não saudáveis, como uma dieta desbalanceada, tabagismo, etilismo e sedentarismo” (TROEN citado por GOTTLIE et al., 2007, p. 04).
Vários estudos mostram que o envelhecimento e a longevidade são regidos por genes. Fatores ambientais atuam nos primeiros anos de vida, aumentando os riscos para a origem “precoce de doenças cardiovasculares e distúrbios metabólicos,” como também de morte prematura (BAKER et al. apud GOTTLIE et al. 2007 p. 10).

Identificação de variáveis no processo de envelhecimento

Assim como as outras fases do desenvolvimento, o envelhecimento também pressupõe várias modificações impostas pelo meio, que requerem do indivíduo constantes adaptações.  A forma como o indivíduo se comporta durante sua vida facilitará ou dificultará o processo de adaptação à velhice que, é a consequência do modo de vida que ele levava. Algumas variáveis afetam o indivíduo durante sua vida, e a velhice será produto delas: “a educação que lhe foi dada, a religiosidade, a cultura e o ambiente familiar” (BATTINI, MACIEL e FINATO, 2006, p. 457).
Pode se conseguir uma boa adaptação à velhice dependendo da presença de algumas variáveis, entre elas: a Autonomia, que é o controle que o individuo tem de sua própria vida, sua capacidade de pensar e agir segundo seu próprio ponto de vista; Redes de apoio é a inserção do indivíduo em algum grupo social; a Autoaceitação aceitar a nova condição como idoso, a base para a autoaceitação é a autoestima; Proposito de vida é o individuo continuar estabelecendo metas de vida; Crença religiosa, com a velhice e o pensamento em torno da própria finitude, voltar-se às praticas religiosas passa a ser indispensável (BATTINI, MACIEL e FINATO, 2006).
Contudo existem variáveis que podem dificultar a adaptação à velhice, entre elas: Agarra-se ao passado, faz com que o indivíduo fique alheio ao presente; Negar a velhice, desprezar o velho e cultuar a juventude, dificulta a aceitação da nova condição; Isolar-se, faz com que o sujeito não busque ajuda e se submerja em tristeza; Adotar uma postura místico-religiosa, assumindo uma postura conformista, deixar-se conformar pela condição de senilidade (BATTINI, MACIEL e FINATO, 2006).

O sujeito sob a perspectiva psicossocial entre heteronomia e autonomia

Segundo Enriquez (2011), todo indivíduo nasce numa sociedade que impõe sobre ele uma cultura e por isso, todo indivíduo é apriore heterônomo. Por isso, é difícil analisar o comportamento de um indivíduo sem analisar o comportamento da sociedade que o cerca. Logo, todo indivíduo é heterônomo, pois este só pode existir dentro de uma sociedade e cultura.
Sendo as sociedades heterônimas, logo tendem a produzir indivíduos heterônimos, passivos de dominação. Mesmo que a sociedade possua seu discurso dominador, este é modificado de formas diferentes por todas as classes que compõe a sociedade. Portanto, o indivíduo heterônomo possui uma parcela de autonomia. Nem as sociedades nem os indivíduos são totalmente heterônimos (ENRIQUEZ, 2011).
É necessário diferenciar sujeito de indivíduo. O indivíduo é um ser conformado, heterônomo, alienado pela sociedade e que se comporta de acordo com os padrões estabelecidos por esta.  Já de sujeito tem-se uma ideia de um ser que tem autonomia sobre os seus atos, capaz de tomar decisões e criar uniões (ENRIQUEZ, 2011).

A percepção na relação figura e fundo

Partindo do pressuposto da corrente existencialista entende-se que um individuo só poderá compreender ele mesmo, através de uma experiência dele com o mundo.
É importante que o homem não perca a singularidade de sua existência, porque, diferentemente de uma pedra, de uma rosa, ele pensa, sente e fala, mas não deve viver de pensamentos já pensados, conviver com sentimentos que lhe foram impostos e falar palavras que não são suas (RIBEIRO, 1985, p. 37).
A percepção é algo estudado desde o início do século passado, através do princípio de figura e fundo da Gestalt-Terapia é possível assinalar o destaque de um estímulo sobre outro. O estímulo destacado será figura e o outro será o fundo (RIBEIRO, 1985).
“Ao falar de figura e fundo estamos falando de forma ou de formação de realidades ou daquilo que se chama ‘formação duo’: uma figura ‘sobre’ ou ‘dentro’ de ‘outra’” (RIBEIRO, 1985. p. 73).
A subjetividade é a realidade e a verdade, por isso torna necessário compreender o indivíduo e a sua singularidade. A Gestalt-terapia defende esse pressuposto no sentido de compreender o homem no sua singularidade e particularidade (KIERKEGAARD apud RIBEIRO, 1985).

As emoções presentes nas interações sociais

As emoções são manifestações afetivas aprendidas e o que as estimula é o ambiente externo. Na infância, junto à família, as relações afetivas são estabelecidas e as emoções são formadas. Uma das funções da emoção é fixar na memória de um povo fatos e acontecimentos significativos de sua história (Schmidt, 2006).
As emoções têm ganhado um papel importante no comportamento e nas relações grupais. E por isso, Thums (1999) citado por Schmidt (2006) ressalta a necessidade das emoções serem estudadas, pois são expressões comuns de uma sociedade, cultura.
As emoções, atualmente tem ganhado um importante papel no comportamento e nas relações grupais. Compreender as emoções é fundamental para desenvolvimento de um grupo, pois exercem um papel agregador nas relações humanas e para que o individuo possa desenvolver é preciso que este esteja emocionalmente equilibrado (SCHMIDT, 2006).

Metodologia

O presente trabalho buscou investigar o universo do velho asilado através de uma pesquisa qualitativa participante, que “se aplica ao estudo da história, das relações, das representações, das crenças, das percepções e das opiniões” dos idosos. O fundamento teórico desse tipo de pesquisa “proporciona a construção de novas abordagens, revisão e criação de novos conceitos e categorias durante a investigação”, com isso, também se faz necessária a objetivação, isto significa que, no processo de investigação é reconhecida a complexidade do objeto das ciências sociais, através da teorização, da revisão critica do conhecimento acumulado sobre o tema pautado, é estabelecidos conceitos e categorias se utilizando de técnicas adequadas e realizando analises ao mesmo tempo “específicas e contextualizadas”  (MINAYO, 2006, p. 57 e 62).
O instrumento adotado foi uma entrevista semiestruturada. A utilização desde instrumento exigiu um roteiro que estendesse “os vários indicadores considerados essenciais e suficientes em tópicos” que contemplassem a “abrangência das informações esperadas”, sendo assim, o roteiro das entrevistas serviu somente como lembrete para os pesquisadores, permitindo uma “flexibilidade nas conversas”, os itens da lista induziram conversas sobre as experiências dos idosos. Com a permissão dos idosos foram realizadas as entrevistas e registradas, o registro destas fora somente de forma escrita (MINAYO, 2006, p. 191).
Participaram desta pesquisa 31 idosos viventes no Asilo São Vicente de Paulo (Lar Betânia), localizado na cidade de Montes Claros, do estado de Minas Gerais, sendo que serão relatados neste trabalho somente seis das entrevistas realizadas. Para a realização da coleta de dados foi necessária à autorização do coordenador do asilo e o agendamento das visitas. Os idosos foram selecionados pelos próprios cuidadores da instituição, levando em consideração a capacidade cognitiva de cada um para responder o questionário elaborado.
Para a analise dos dados foi utilizado o método quantitativo a fim de “trazer à luz dados, indicadores e tendências observáveis”. O método quantitativo serviu para analisar demograficamente os dados das 31 entrevistas, como idade, estado civil e o tempo de vivência no asilo. A utilização dos métodos quantitativos e qualitativos ajuda no “entendimento de que nos fenômenos sociais há possibilidade de se analisarem regularidades, frequências, mas também relações históricas, representações, pontos de vista e lógica interna dos sujeitos em ação” (MINAYO, 2006, p. 56 e 63).

Resultado e Discussão

A partir das 31 entrevistas realizadas apresentamos aqui a categorização demográfica dos dados.
Figura 1: Faixa etária.
Em relação à faixa etária dos idosos entrevistados pode se analisar que 29% têm idade entre 60 e 70 anos; 19% têm idade entre 71 e 80 anos; 13% tem idade entre 81 e 90 anos; 3% tem idade acima de 90 anos e 23% dos entrevistados tem idade incompatível com a informada.
Figura 2: Estado civil.
De acordo o gráfico acima, conclui-se que 42% dos entrevistados estão solteiros; 16% estão viúvos; 16% estão separados; 13% informarão situação diferente às demais; 7% estão casados; 6% não informaram seu estado civil.
Figura 3: Naturalidade.
Em relação à naturalidade dos idosos podemos concluir que 43% são de outras cidades do Norte de Minas; 27% são de outros lugares; 20% são de Montes Claros e somente 10% são de Zona Rural.
Figura 4: Tempo de permanência no asilo.
Em relação aos dados acima, pode-se concluir que 52% (maior parcela dos entrevistados) têm até cinco anos de permanência no asilo; 22% não informaram; 13% têm entre 6 a 10 anos de permanência; 10% têm mais de 16 anos de permanência e somente 3% têm entre 11 a 15 anos de permanência no asilo.
Baseando- se no texto das autoras Battini, Maciel e Finato (2006) foi possível observar nos relatos das idosas a ausência de variáveis que facilitam a adaptação à velhice.  A falta de autonomia é perceptível na fala das idosas, onde estas são subordinadas as normas da instituição que pode ser comprovado na seguinte fala de “E”: “Tem horário para fazer as coisas aqui.”.
Pôde ser observado também nas entrevistas que acontecimentos passados ainda estão bastantes presentes na vida das idosas, algumas remetiam ao passado onde foi possível fazer uma comparação ao texto de Ribeiro (1985) que faz uma relação de figura e fundo. O passado apresenta como figura, mas para ser entendido não pode ser dissociado do fundo, pois o ser humano só pode ser compreendido na sua totalidade.
Schimdt (2006) afirma que as emoções são importantes para o desenvolvimento pessoal e do grupo e que estas se fazem presentes em todos os ambientes. E isso pôde ser notado no ambiente do asilo, durante as entrevistas, as entrevistadas mostraram certo grau de emoções principalmente quando foi retratada a família.
Baseando-se no texto de Gottlie et al. (2007) observamos características tanto do envelhecimento biológico normal quanto do usual. Isso pode ser comprovado com a fala da entrevistada “M”: “Eu sou surda né!”, e também na fala da entrevista “E”: “Eu tô com muita butuca na cabeça.”.

Considerações Finais

Com o estudo dos referenciais teóricos aliados à prática de estágio foi possível perceber que os impactos da institucionalização na vida das idosas vieram de forma negativa, no sentido de que retirou a autonomia parcial que estas possuíam antes de irem para o asilo. Na realização das entrevistas pudemos perceber que a idosa “E” viva em conformidade com o seu estado de heteronomia, assim sendo, esta se mantem isolada em seu quarto, por opção, saindo apenas para realização de atividades impostas pela instituição.
Apesar dos idosos seguirem os regulamentos da instituição, não demonstraram descontentamento quanto a isso. Dentro das entrevistas pudemos perceber também que a sujeita “M”, prefere os cuidados que recebe dentro do asilo, que quando viva em sua residência, a sujeita relatou que optou pela ida para o asilo por necessidade de maiores cuidados, por seus filhos não terem condições de dar a devida atenção a ela.
Este estudo teve como preocupação investigar os impactos da institucionalização na qualidade de vida dos idosos do Asilo São Vicente de Paulo (Lar Irmã Betânia). A ida a campo foi de extrema relevância para nós, acadêmicos do terceiro período de Psicologia, pois nos proporcionou um contato direto com a realidade vivida pelos idosos institucionalizados, quando na nossa formação como profissionais da área, teremos que aprender a olhar mais atentamente para as potencialidades dos idosos, na formação de seus espaços habituais.


Fonte: http://artigos.psicologado.com/psicologia-geral/desenvolvimento-humano/os-impactos-da-institucionalizacao-na-qualidade-de-vida-do-idoso#ixzz2gf8DIpxZ
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