Envelhecimento e Qualidade de Vida: Possibilidade de Construção Através de Metáforas

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 Escrito por: Lúcia Emília da Silva Walger Pupo
O envelhecimento é um processo natural de deterioração das funções orgânicas decorrente da passagem do tempo. Apesar do avanço da Medicina e da Ciência possibilitarem o aumento da expectativa de vida verifica-se que nem sempre ela é acompanhada de qualidade, devido aos efeitos do envelhecimento. Entre as causas prejudiciais ressalta-se o estresse e os estados mentais permeados por crenças limitantes. A prevenção pode ser feita durante todo o ciclo de vida do ser humano, mas por interesses naturais desta etapa da vida, pessoas mais jovens direcionam o foco de sua atenção para o mundo exterior e para as aquisições, por esse motivo o período propício para iniciar a prevenção pode ser a segunda metade da vida, quando o interesse do indivíduo se volta para os aspectos internos. As metáforas estão entre os recursos da Programação Neurolinguística que podem contribuir para a modificação de estados mentais inadequados, a desconstrução de crenças limitadoras e o fortalecimento de crenças positivas em relação ao processo de envelhecimento favorecendo que sua ocorrência seja acompanhada de qualidade de vida. Através da identificação do indivíduo com personagens de histórias, as crenças pessoais podem ser resignificadas e os recursos utilizados pelos personagens das histórias podem ser novas referências, para que novos objetivos sejam traçados e novas atitudes sejam construídas. A aplicação deste recurso foi realizada com um grupo de quatro mulheres de meia idade e no final observou-se que a partir de algumas mudanças na compreensão do assunto, novos objetivos foram traçados em busca de qualidade de vida.
O interesse pelo fenômeno do envelhecimento teve início a partir de sensações de desconforto e de sentimentos de impotência experimentados no exercício da profissão de psicóloga durante os atendimentos realizados a pessoas idosas com direitos violados. Esta é uma situação que transita na contra mão do Estatuto do Idoso, que é um documento que preconiza a garantia de direitos da pessoa idosa. O avanço da tecnologia, as descobertas da Medicina tem proporcionado a melhoria das condições de vida das pessoas com idade acima de 65 anos e consequentemente o aumento da expectativa de vida do ser humano, no entanto, apesar de atualmente existir um número significativo de pessoas em idade avançada, muitas delas encontram-se sem autonomia para gerir sua vida, com comprometimentos de saúde, transtornos mentais, demências, dependentes de cuidados de terceiros, vivendo sem o mínimo de qualidade de vida. Conforme foi noticiada pela sala de imprensa do MDS [1], a participação de um público de pessoas com mais de 60 anos no total da população nacional passou de 4,2%, em 1950, para 8,6% em 2000, devendo chegar a 14,2% em 2020. Estas informações sugerem que está havendo uma mudança no perfil da população brasileira, com significativo aumento da população de pessoas idosas, sendo que este tema vem solicitando debates, mobilização da sociedade e definição de políticas públicas voltadas para este segmento. Calcula-se que atualmente haja um ganho em média de 30 anos a mais, se comparado com a expectativa de vida das pessoas no passado, mas apesar da boa notícia, esse ganho em tempo de vida nem sempre é acompanhado de qualidade devido às diversas questões que envolvem o envelhecimento e entre elas, estão o estresse e os estados mentais dos indivíduos que podem interferir no processo, agravando ou minimizando os seus efeitos. Entre as possíveis causas que contribuem para o agravamento das condições de saúde no envelhecimento humano, pensou-se na hipótese de que as crenças limitantes em relação ao processo de envelhecimento podem influenciar nos conteúdos do pensamento, nos sentimentos, nas condições de saúde e na baixa qualidade de vida da pessoa idosa e que as representações simbólicas, a visão de mundo de cada um, podem contribuir para o modo como o envelhecimento irá acontecer para o indivíduo. Partindo da premissa de que crenças limitantes a respeito do envelhecimento podem potencializar efeitos que levam ao adoecimento do indivíduo, pensou-se na aplicação de recursos da PNL - Programação Neurolinguística [2], com ênfase nas metáforas, para potencializar crenças [3] fortalecedoras e contribuir para a melhor aceitação do envelhecimento.  Através da mudança de crenças limitantes e da construção de novos significados em relação à vida, ao envelhecimento e à morte, pretende-se que sejam criados estados emocionais que propiciem melhor condições para o bem estar dos indivíduos.

2. Desenvolvimento

Tendo em vista o que foi abordado e considerando a relevância em melhorar a compreensão acerca do processo de envelhecimento cita-se a definição de CHOPRA (1981, p.107) que define o envelhecimento como “a deterioração natural do funcionamento físico e mental, que culmina com a interrupção de todas as funções, a morte”. O envelhecimento é compreendido como um processo degenerativo, em que ocorre o declínio do corpo e das funções dos indivíduos, sendo que tais modificações ocorrem em função da passagem do tempo.
O homem é um ser biopsicossocial que possui várias dimensões e as perdas que decorrem do envelhecimento afetam a todas elas.  Nas transições deste ciclo de vida em que ocorrem as transformações fisiológicas, mudanças hormonais, alterações mentais, emocionais psicológicas e sociais, ocorrem também transformações nos papéis que vinham sendo exercidos pelos indivíduos no trabalho, no meio social e na família.  Na visão biológica, o envelhecimento pode ser definido como um processo multifatorial que evolui de forma contínua, que inicia com o nascimento, ocorre durante todo desenvolvimento e maturação culminando na velhice e na morte.  As mudanças fisiológicas decorrem de degeneração orgânica, podendo haver o surgimento de doenças mentais, doenças crônicas, doenças e degenerativas, e este processo pode ocorrer acompanhado de ansiedade e depressão. Nas dimensões emocionais e psicológicas, os estados de desesperança e sofrimento, a mente focada em sentimentos de inadequação podem ocasionar doenças psicossomáticas, e no aspecto social pode ocorrer a inadaptação do indivíduo ao meio em que ele habita.
A perda de papéis, para os homens, está relacionada principalmente à aposentadoria e para as mulheres refere-se à saída dos filhos de casa. Para as mulheres que abriram mão de suas necessidades e se concentraram nas necessidades da família, a saída dos filhos de casa pode trazer sofrimento e falta de objetivos em suas vidas. Em relação à perda do espaço social, sabe-se que as culturas mais antigas privilegiavam a sabedoria dos idosos, eles eram valorizados e procurados pelas pessoas que buscavam seus conselhos e os consideravam como a palavra final. Na atualidade o modelo da cultura vigente, valoriza a vitalidade do corpo jovem e nela, o idoso parece perder o seu valor.
BOECHAT (2002, p. 41) cita a definição de Jung de que a vida é “como um curto processo, entre dois grandes mistérios, o nascimento e a morte”.  Ao definir a vida, Jung a compara com o movimento do sol que nasce no Oriente, percorre o seu curso até o zênite, que é o momento máximo de sua força e esplendor e decai até morrer no Ocidente. Nesta perspectiva, o zênite seria um marco onde um novo ciclo se inicia; a segunda metade da vida, que é um movimento decrescente da força e do vigor físico. Nessa etapa começa a haver redução de interesse e investimento no mundo externo, inicia-se uma mudança de atitude em que a busca de sabedoria no mundo externo se volta para a busca da sabedoria interior.  Tendo em vista que a contemporaneidade recalcou a morte, o que prevalece no imaginário da sociedade atual é o ideal da juventude eterna e da saúde perfeita. O envelhecimento, que é uma das experiências que fazem parte da aventura humana e culmina na finitude da vida, não é bem aceito, buscam-se recursos para manter a juventude e a beleza, através de academias de ginástica, técnicas de cirurgias plásticas, aplicações de botox e silicone, como forma de manter o envelhecimento e a morte recalcados. São lugares seguros onde as pessoas buscam refúgio para evitar o enfrentamento desta realidade. Entretanto, o que é recalcado busca a visibilidade da consciência, por isso ressalta-se a importância de que os sentimentos de luto que acompanham as perdas sejam vivenciados em todas as suas etapas.
LIVINGSTONE (2008, p. 18) cita os cinco estágios psíquicos do luto sistematizados pela Dra. Elisabeth Kubler Ross, que são: a negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Para o luto ser bem elaborado é necessário viver cada etapa, entrar em contato com os sentimentos que surgem nos diferentes estágios para não ficar aprisionado a nenhum deles. As perdas consequentes do processo de envelhecimento podem causar grande sofrimento aos indivíduos e esta atitude emocional pode favorecer o adoecimento se elas não forem bem elaboradas.
Segundo a Organização Mundial de Saúde, citado por CHOPRA (1987, p.1) “saúde é o estado de perfeito bem estar físico, mental e social”. Um dos grandes problemas que pode aumentar o risco de desenvolvimento de doenças é o estresse. Ele afeta o indivíduo física e emocionalmente, pode se manifestar como apreensões, desconforto e sintomas físicos. Em momentos de estresse o cérebro dispara adrenalina, cortisol e outros hormônios e se esse mecanismo ocorrer continuamente,  poderá culminar em adoecimento. GRAÇA FILHO, apud SLAVIERO (2011, p. 14) descreve a importância dos ritmos na manutenção da saúde. Eles são oscilações ou variações periódicas que ocorrem durante o estado de vigília, pois o nível de consciência não permanece o mesmo durante as 24 horas. O autor refere que após o descanso o nível de lucidez aumenta, atinge um pico máximo e depois começa a diminuir até culminar no sono. A desorganização dos ritmos causa perda de eficiência dos diversos sistemas e é causa de distúrbios e doenças, pois é nos momentos em que o sistema está menos ativado que o processo de autorregeneração ocorre mais intensamente. Sabe-se que quando o animal está frente ao perigo há liberação de diversos hormônios na corrente sanguínea. O aumento da produção de adrenalina, cortisol, hormônios do crescimento e glucagom provocam o aumento dos batimentos cardíacos, o aumento da pressão arterial e o aumento da taxa de glicose no sangue. Esse mecanismo aumenta a lucidez, a atenção e a concentração, preparando o animal para dar a resposta de luta ou de fuga, o que lhe garante a sobrevivência.
Na atualidade o homem é pressionado a dar respostas precisas e imediatas, entretanto, compreende-se que os desafios do cotidiano em sua complexidade não permitem soluções fáceis em curto espaço de tempo. As pressões exercidas sobre o indivíduo se transformam em ameaças, deixando-o em permanente estado de tensão, a falta de pausas no cotidiano priva os sistemas da reposição de energia e da autorregeneração afetando-o em sua totalidade. Os pensamentos inadequados também podem contribuir para a instalação do estresse e da doença, pois o cérebro não distingue a realidade da imaginação.
Segundo CHOPRA (1987, p. 109) os pensamentos são traduzidos no cérebro como neurotransmissores que afetam a concentração dos hormônios do estresse e quando esse processo é disparado, há o enfraquecimento do sistema imunológico e o corpo fica mais suscetível às doenças. O autor afirma que “um dos benefícios da eliminação do estresse é o possível prolongamento da vida”. Muitos mecanismos psicológicos podem estar presentes quando se está diante de eventos estressores. Cada pessoa utiliza seus recursos internos no enfrentamento de situações inesperadas e ameaçadora. Os estados mentais desempenham um papel significativo na dinâmica saúde e doença, pois estão relacionados às diversas inteligências. CHOPRA (1981, p. 93) cita que “a inteligência não está apenas no cérebro, mas também nas células, nos tecidos, no sistema nervoso central. Enzimas, genes, receptores, anticorpos, hormônios e neurônios são expressões de inteligência”. Sendo assim, a forma como compreendemos o mundo, as nossas crenças e emoções afetam o metabolismo podendo gerar saúde ou doença e no caso específico do envelhecimento, pode reduzir ou agravar os seus efeitos.
Diversas são as variáveis que interferem na qualidade do envelhecimento dos indivíduos, tais como as questões genéticas, alimentação, exercícios físicos, questões ambientais e sociais, no entanto, na perspectiva dos estados mentais optou-se por manter o foco nas questões subjetivas, na resignificação de crenças limitantes e na inserção de crenças fortalecedoras. Muitas doenças crônicas são ocasionadas pelo envelhecimento, mas há pessoas que se condenam a uma morte em vida pela falta de recursos emocionais que as auxiliem a lidar com as perdas, sentindo-se velhas aos sessenta anos de idade. Do mesmo modo há pessoas de 80 anos ou mais que vivem a vida com satisfação. Partindo do pressuposto que os efeitos psicológicos das perdas decorrem da inabilidade em manejá-las, é possível presumir que quanto mais o indivíduo for capaz de sobrepujar as crises, menos sintomas ele desenvolverá. Visando minimizar os efeitos do envelhecimento, pensou-se em atividades para o desenvolvimento da autoestima, o resgate da capacidade de sentir prazer, de sonhar, como meios de conservar o espírito flexível e maduro para aprender a se submeter, pois o envelhecimento com saúde exige a capacidade de transcendência do ego e a aceitação da realidade. Diante da questão sobre quando devemos começar a nos preparara para a morte GOSWAMI (2005, p. 217), responde que “a vida como um todo é uma preparação para a morte” e ressalta que não há motivo para não começarmos agora.
Diante do exposto, optou-se por aplicar estratégias da Programação Neurolinguística, salientando as metáforas, com um grupo de quatro mulheres de meia idade que estão vivenciando o movimento de saída dos filhos de casa, etapa da vida em que a mulher experimenta a chamada síndrome do ninho vazio e ela começa a se dar conta de que o envelhecimento está se aproximando. Como esta é a etapa da vida em que o olhar tende a voltar-se para o interior, acredita-se que é um momento propício para dar início a construção de novos sentidos para a vida e através de metáforas possibilitar a ampliação do mapa de mundo das participantes e a reflexão acerca da influência das crenças que limitam a qualidade do envelhecimento. Embora os efeitos desta prática não sejam visíveis em caráter imediato, aposta-se que na medida em que a mulher for capaz de construir a própria individualidade haverá mais facilidade de atravessar as transições deste ciclo de vida. Para melhor compreender os efeitos desta intervenção é necessário conhecer alguns conteúdos da PNL.

2.1 Programação Neurolinguística

A Programação Neurolinguística, por definição, é a arte e a ciência da excelência. Ela surgiu a partir de um estudo realizado com pessoas altamente qualificadas que obtinham resultados excepcionais em seus campos de atuação. Após os estudos realizados O’CONNOR E SEYMOUR (1990 p. 15) concluíram que “qualquer pessoa pode render técnicas de comunicação para aumentar sua eficiência pessoal e profissional”. A PNL teve início na década de 70 e surgiu a partir de um trabalho conjunto de John Grinder que era professor assistente do Departamento de Linguística da Universidade da Califórnia e Richard Bandler, estudante de psicologia da mesma Universidade. Eles estudaram os terapeutas que faziam sucesso com intervenções inovadoras naquela ocasião. Eram eles: Fritz Perls, fundador da Gestalt, Virginia Satir, terapeuta familiar e Milton Erickson, hipnoterapeuta. Ao realizarem o estudo, os pesquisadores tinham por objetivo identificar os padrões que aqueles terapeutas excepcionais utilizavam, para depois ensiná-los a outras pessoas.
A expressão Programação Neurolinguística compreende três ideias: “neuro” reconhece que todos os comportamentos nascem de processos neurológicos dos sentidos da visão, da audição, do olfato, do tato, do paladar e sensação; “linguística” porque usamos a linguagem para ordenar nossos pensamentos, nossos comportamentos e nos comunicar com os outros; “programação” diz respeito ao modo como organizamos as nossas ideias e as nossas ações a fim de produzir resultados.   A percepção que se tem do mundo é filtrada pelas experiências pessoais e únicas, pela cultura, pela linguagem, pelas crenças, valores, interesses e pressuposições de cada indivíduo. Através dos sentidos o mundo é explorado e mapeado, entretanto, o indivíduo percebe somente uma parte do que ele observa. Isso implica na construção de um mapa de mundo individual que se torna a referência na qual os indivíduos pautam as suas ações.
A PNL refere-se às experiências subjetivas dos indivíduos. O aumento da eficiência pessoal está relacionado com o aprendizado, com o autoconhecimento, a identificação de crenças pessoais e aplicação de estratégias que propiciam o desenvolvimento do indivíduo, pois como ressaltam os autores, O’CONNOR e SEYMOUR, (1990, p. 213) “não basta apenas aprender, é essencial aprender a aprender”.  No entanto, assim como o mapa não representa o território nas suas particularidades, nem tudo que é observado é apreendido pelo indivíduo. Ao compreender suas limitações, buscar novos conhecimentos, o seu mapa individual é ampliado apresentando novos caminhos que viabilizam outras possibilidades para solução de problemas, ou seja, abrem-se novas redes neurais no cérebro, conforme a ciência vem constando através de novas descobertas da Física Quântica, que diz que a realidade objetiva é um universo de infinitas possibilidades e cada uma se materializa a partir do olhar do observador. Trazemos um conhecimento adquirido baseado na premissa da ciência que retrata a visão de que o mundo é objetivo e previsível. Entretanto a Física Quântica e a Teoria dos Sistemas trazem novas descobertas que estão abalando esses conceitos, convidando a uma mudança de paradigma. A Física Quântica ressalta que o observador exerce influência sobre aquilo que observa. O experimento da fenda dupla mostra que dependendo do tipo de experiência que se empreenda, a luz atua como partícula ou como onda, sendo impossível determinar onde ela se encontra, pois colapsa diante do observador. Esse experimento muda o conceito de um mundo previsível para um mundo fundamentalmente indeterminado. A Teoria dos Sistemas traz o conhecimento de que não é possível prever todas as variáveis mesmo nos sistemas muito simples e que qualquer variação, por menos que seja pode modificar todo o sistema.  ANTON (2012, p. 68) declara que “há interdependência e organização entre as partes que constituem o organismo total” e isto vale para os indivíduos e famílias. Com base nessas novas premissas e tendo em vista que os instrumentos da PNL aumentam a eficiência pessoal, pode-se pensar que a aprendizagem, a compreensão deste conhecimento e aplicação dos recursos que ela oferece, através de atividades realizadas em grupo, são instrumentos poderosos, capazes de propiciar ao indivíduo a possibilidade de efetuar mudanças de crenças limitadoras, inserir crenças fortalecedoras, ampliar a compreensão e a visão de mundo. Esses recursos podem possibilitar mudança de níveis de consciência e oferecer alternativas para as ações e comportamentos, o que pode contribuir para que o processo de envelhecimento ocorra de forma saudável com aumento da qualidade de vida aos indivíduos, podendo se estender para além deles, conforme ressaltam os autores O’CONNOR e SEYMOUR (1990, p. 214) quando citam que “é o nível de consciência dos indivíduos que cria o nível de consciência da sociedade”. Os seres humanos são capazes de carregar sentimentos que podem ser confusos, dolorosos e perturbadores e necessitam de clareza para serem administrados com maestria, por isso a metáfora foi a ferramenta escolhida como recurso para a reflexão e compreensão acerca dos mitos e verdades que envolvem esse processo natural que acomete a todos os seres humanos.

2.2 Metáforas

As metáforas são formas de histórias que permitem aos indivíduos usarem a imaginação e a criatividade mais livremente, elas são interpretadas como se fossem verdades, são universais, representam a linguagem do inconsciente e conectam os indivíduos com a sua sabedoria interior. As metáforas conseguem atravessar a estrutura defensiva e contornar ou evitar as defesas que foram construídas pelo medo ou pela relutância em mudar. São histórias com muitos níveis de significados que distraem a mente consciente e motivam a busca inconsciente de recursos e significados. A palavra metáfora tem origem em uma raiz grega que significa “levar além”. “A metáfora nos leva além de um significado e abre a nossa mente para muitos significados possíveis” (O' CONNOR, 2012).
A metáfora atinge um nível mais profundo e imediato que vai além da linguagem cotidiana que atinge o nível cognitivo. A metáfora utiliza a linguagem da imaginação e afeta o indivíduo sensorialmente, atinge o nível da sua emoção. SUNDERLAND (2000) refere que “muitos adultos ficam presos nos becos sem saída dos rótulos convenientes ao descrever os próprios sentimentos”. As metáforas podem ser as chaves que abrem as portas do universo interior e permitem o acesso aos conteúdos do inconsciente que estão desconectados da consciência. Através das histórias os indivíduos podem ver a mesma situação com um novo olhar e realizar mudanças em seus sentimentos, em suas atitudes e em seus comportamentos. A metáfora é um instrumento eficaz para a realização de mudanças emocionais e cognitivas, ela pega uma expressão de um campo de experiência e a utiliza para dizer sobre algo que é de outro campo de experiência. Ao identificar-se com um personagem da história através de uma relação empática, o indivíduo pode associar com a sua própria história e usar os mesmos recursos que foram usados pelo personagem na solução de seus problemas e como saída do beco no qual estava aprisionado.

2.3 Procedimentos da Pesquisa

As atividades foram realizadas com um grupo de quatro mulheres com idade entre 50 e 60 anos, que concordaram em se reunir semanalmente por duas horas, durante o período de três meses. As reflexões sobre o envelhecimento foram realizadas a partir de recursos metafóricos, entre eles, histórias, frases, textos e imagens objetivando a autopercepção e a resignificação de crenças. Para o entendimento do processo de envelhecimento foram realizadas atividades lúdicas para expressão da criatividade, técnicas de relaxamento e abordados temas específicos para a autopercepção. Foram realizadas atividades que proporcionaram a expressão simbólica das questões presentes no processo de luto, entre elas: a percepção do envelhecimento, as crenças, as perdas provenientes dele, a negação do fenômeno, os sentimentos de revolta decorrentes, as estratégias de transferência de responsabilidades, os sentimentos de tristeza e a aceitação do envelhecimento.  Elas se identificaram com a fase do ninho vazio e reconheceram sentimentos conflituosos pela entrada de novos membros na família, os cônjuges dos filhos e netos. Através da frase citada por CARTER, MCGOLDRICK e Colaboradoras (2008, p. 27) ressaltando que “a resposta de cada família aos desafios do estágio tardio da vida decorrem de padrões familiares anteriores desenvolvidos para manter a estabilidade e a integração”.
As participantes identificaram que reproduzem comportamentos resultantes de padrões construídos ao longo da história de vida e reconheceram que alguns modelos utilizados que serviram em outros momentos da vida já não servem mais e precisam ser modificados. Elas explicitaram que a adaptação ao ninho vazio será melhor ou pior conforme foi sentido o apego aos filhos e ao fato do relacionamento conjugal ser ou não satisfatório. Foi abordada a questão do entusiasmo através do texto sobre “motivação” refletindo sobre o significado da palavra que vem do latim moveres e significa mover, como um impulso que move para a frente, para a ação. Elas refletiram sobre o quanto foram limitadas pela educação, pela vivência no meio social e familiar. Entraram em contato com a tristeza em relação ao envelhecimento explicitando que não querem envelhecer, pois acreditam que o envelhecimento traz “dores físicas, artrose, decadência muscular, das artérias, esqueléticas, flacidez, perdas da articulação, da memória”. Elas afirmaram que não acreditam em nada para melhorar as dores, que o envelhecimento não tem cura e elas estão conformadas. Entretanto, após a verbalização dos sentimentos, elas citaram alguns pontos positivos, tais como vantagens em poder utilizar vagas para idosos, não enfrentar filas em supermercados e bancos, ter mais sabedoria e tolerância diante da vida. Além desses fatores, uma participante ressaltou que o envelhecimento permite que as pessoas sejam mais livres, autoriza que as pessoas façam “o que estão a fim de fazer”, referindo-se às preocupações com a manutenção da imagem frente à sociedade.
Foram realizadas abordagens sobre a vivência do papel de avó, a libertação das amarras da profissão e um novo status para a mulher idosa, ressaltado como ponto positivo por uma das participantes, que declarou haver relações mais verdadeiras nos grupos porque a mulher mais velha deixa de ser uma ameaça para as outras mulheres. Elas reconheceram que fisicamente há perdas, mas que o recurso financeiro possibilita pagar academia de ginástica e o custeio de cirurgia plástica. Citaram os medos que sentem, entre eles, das quedas, da Doença de Alzheimer, Doença de Parkinson, de ficar dependente de terceiros e da aproximação da morte. Reconheceram as limitações físicas, mentais e emocionais do envelhecimento, a importância de realizar cuidados com o corpo e a mente e ressaltaram a importância da mudança de valores nesta etapa da vida.
 Através da leitura da metáfora “A Renovação da Águia” elas abordaram atitudes de se manter jovem através de cirurgias plásticas, do uso de vestimentas inapropriadas para a idade, do envolvimento afetivo com pessoas mais jovens.  Avaliaram a exposição das pessoas ao ridículo por não aceitarem o envelhecimento e concluíram que o tema também pode estar na cabeça das pessoas. Durante o desenvolvimento das atividades, elas se identificaram com personagens de contos de fadas e buscaram os recursos utilizados pelos personagens na solução de suas dificuldades. A partir das definições de si mesmas, cada uma procurou em sua história, como esta autoimagem foi construída e como está presente nas suas representações e no seu mapa de mundo. Identificaram algumas atitudes que precisam ser modificadas para a construção da qualidade de vida. Além da estratégia da metáfora, foram utilizados recursos de Psicogeografia, para reforçar qualidades que desejam adquirir, EFT [4] para limpeza de emoções de tristeza e impotência. Para reforçar e ancorar [5] a intenção de mudança, elas expressaram através de cartazes o que pretendem deixar para trás no processo de envelhecimento, entre eles: a colagem de uma pessoa chorando, complementada com as palavras “lágrimas”, uma gravura de pessoas com nariz de palhaço, um cartaz com as palavras “xô, gordura” e outro com a frase “cortina de burrice”. Elas se expressaram em relação ao futuro através da gravura de uma mulher e uma menina, sentadas ao redor de uma mesinha e a frase “doação de amor”; a foto de um bebê e a palavra “brincar”; outro cartaz com a frase “escrevo, logo sou” e o último representado por uma figura de pedras brilhantes com a frase “há joia depois da morte”. Como novos objetivos construíram um quadro com planos: mais tempo com a família, parar de fumar, fazer matrícula na academia, emagrecer e destacaram que encontraram no trabalho voluntário um novo objetivo para a vida e uma saída para a depressão. Como síntese das atividades apresenta-se a metáfora que as participantes criaram sobre o envelhecimento através da brincadeira de completar as frases, uma da outra.
Maria está envelhecendo. Ela está mais sábia, cansada, mais paciente, tolerante. Entretanto, Maria está sofrendo algumas perdas, entre elas estão a elastina, o colágeno e a visão. A pele resseca, a mulher murcha. Olha no espelho – uva...passa. Ela sente tristeza, percebe que a boca vira um código de barras, ela grita: socorro! Como ela é sábia aceitou que o envelhecimento é uma consequência da vida da qual não podemos escapar.

3. Considerações Finais

Não é possível mensurar em curto prazo a influência que este trabalho terá na qualidade de vida das participantes em seus processos de envelhecimento, mas foi possível observar que houve ressignificação de algumas das crenças que elas elegeram sobre o tema abordado. Através da reflexão acerca da importância de buscar novos sentidos para a vida, elas passaram a ter maior capacidade de enfrentamento de seus problemas. A mudança de perspectiva em relação ao envelhecimento possibilitou a retirada de alguns rótulos que a história de vida imprimiu nas mulheres. As intervenções realizadas com as metáforas contribuíram para a construção de uma identidade mais madura. Através de identificação com personagens das histórias e reflexões sobre os temas, as participantes passaram a dispensar mais atenção e cuidados com o corpo e com a mente. Elas se tornaram capazes de olhar para o passado, enfrentar o presente e acreditar no futuro. Aprenderam a ampliar os significados das experiências vivenciadas e a buscar o desenvolvimento da dimensão espiritual, com visível mudança de perspectiva em relação a si e na relação com o mundo. Ao finalizar, uma das participantes, que é Mestre na área da Educação, metaforicamente comparou os quatro pilares da educação ao trabalho realizado e sua relação com o envelhecimento. Ressaltou que o processo educativo se dá ao longo da vida e a educação baseia-se em quatro pilares: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. As atividades culminaram em um novo conhecimento sobre o processo de envelhecimento, a partir da reflexão de suas causas e consequências. Após conhecer o tema, colocar em prática o conhecimento adquirido, conviver com a realidade do envelhecimento e aceitar que ele é inevitável. Ao compreender que a ausência de sentido dada a vida pode ser relevante no mecanismo que cria e mantém o medo diante do fenômeno natural da morte. 
EVELY apud POLETI e DOBS (2008, p.72) citam que “a verdadeira morte não é morrer, mas deixar de acreditar, parar de nascer...e paramos em qualquer idade!  A verdadeira vida é continuar vivendo mesmo diante da morte”. O que reverberou em todas nós no término das atividades é que existe um mecanismo de interação corpo-mente em que um afeta o outro positiva ou negativamente. A capacidade de ver o lado positivo em tudo pode ser uma boa estratégia para chegar ao envelhecimento com qualidade de vida e as metáforas podem ser a linha que costura esta interação.

Sobre o Autor:

Fonte: http://artigos.psicologado.com/psicologia-geral/desenvolvimento-humano/envelhecimento-e-qualidade-de-vida-possibilidade-de-construcao-atraves-de-metaforas#ixzz2gf7TwX16 
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