Trânsito, bebida e carnaval Falamos muito do elo entre as bebidas e as mortes, sobretudo porque o legislador brasileiro, sempre que os números sobem, já providencia uma nova lei sobre o assunto. Mas esse buraco é muito mais profundo do que se possa imaginar. Luiz Flávio Gomes

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Com quase 43 mil mortes no trânsito em 2010 o Brasil passou os Estados Unidos e a Europa, passando a ocupar o terceiro posto mundial nesse ranking (atrás da China e da Índia). Falamos muito do elo entre as bebidas e as mortes, sobretudo porque o legislador brasileiro, sempre que os números sobem, já providencia uma nova lei sobre o assunto. Mas esse buraco é muito mais profundo do que se possa imaginar.

Nossa salada mortífera no trânsito decorre de muitos fatores: 68% dos motoristas ignoram a faixa de pedestres (Folha de S. Paulo de 07.08.12, p. C3), Detran investe somente 0,05% do dinheiro de multas em educação para o trânsito (Folha de S. Paulo de 01.08.12, p. C1), só 12,5% das estradas brasileiras são asfaltadas - contra 64,5% nos EUA, 47,4% na Índia - (O Globo de 19.08.12, p. 44 e de 17.07.11, p. 3), 30% dos estudantes das escolas particulares da cidade de São Paulo se embriagaram no mês anterior (Folha de S. Paulo de 27.06.10, p. C12), 22% dos universitários podem desenvolver dependência de álcool (Folha de S. Paulo de 24.06.10, p. C4), muitas curvas são mal projetadas (Folha de S. Paulo de 08.02.10, p. C1), infraestrutura nitidamente precária (O Estado de S. Paulo de 19.03.11, p. A3), mortes se repetem em locais previsíveis (Folha de S. Paulo de 17.04.11, p. C1), 57,4% das estradas têm deficiências e 26,9% estão em situação crítica (O Estado de S. Paulo de 31.10.11, p. A3), falta qualidade para o traçado das rodovias assim como para o pavimento (Folha de S. Paulo de 05.05.11, p. C4), permissão para de álcool em trechos urbanos deixa 93% dos pontos livres de fiscalização nas estradas (Folha de S. Paulo de 21.04.11, p. C1), blitze somem das ruas de SP 3 anos depois de a lei seca entrar em vigor (O Estado de S. Paulo de 20.06.11, p. C1), 18,9% da população admite que bebe em excesso (O Estado de S. Paulo de 23.06.11, p. A3), distração ameaça 56% dos motoristas (O Estado de S. Paulo de 06.06.11, p. C4), lei seca dificultou a punição dos infratores (Veja de 02.11.11, p. 76), multas não punem nem uma quinta parte dos motoristas alcoolizados (Folha de S. Paulo de 25.09.11, p. C6), índice de óbitos nas vias brasileiras é três vezes maior que o aceito pela OMS - 18,3 mortes para cada 100 mil habitantes (O Globo de 09.10.11, p. 6 - em 2010 passamos para 22,4 mortes a cada 100 mil habitantes, ou seja, quase 4 vezes mais que a média mundial), SP tem 12 pontos de "racha relâmpago"(O Estado de S. Paulo de 22.07.10, p. C1), pai de atropelador diz que policiais exigiram R$ 10 mil para liberar carro do acidente (O Globo de 24.07.10, p. 16) e "bandalhas no acostamento geradas pelos marginais no volante", sendo certo que o acostamento é o local onde morrem 10% das pessoas atropeladas (Época de 17.09.12, p. 114).

Considerando tudo isso, mais o fator chuva, tempo bom ou ruim, dias de sol ou não etc., pode-se afirmar (desgraçadamente) que no carnaval deste ano, novamente, teremos muitas "mortes antecipadas" (evitáveis). Vejamos os números dos últimos cinco anos:

Morte nas estradas federais no carnaval - 2007 a 2013

Ano (Nº de vítimas de acidentes nas estradas)
2007 (145)
2008 (128)
2009 (127)
2010 (143)
2011 (213)
2012 (176)
2013 (?)

Tendo em conta a média dos últimos cinco anos, 188 pessoas poderiam estar perdendo suas vidas nas festas carnavalescas de 2013. Essa projeção do Instituto Avante Brasil é, no entanto, puramente numérica (estatística). O número real pode ser maior ou menor, porque depende da concorrência de muitos fatores: intensificação da fiscalização em virtude da nova lei seca, quantidade de deslocamentos, o aumento da frota etc.

O que interessa, no entanto, não é acertar a quantidade de mortos, sim, sensibilizar nossas autoridades para a construção de uma política viária eficaz, tendente a eliminar essa chaga nacional que enluta diariamente os brasileiros. Sempre será lamentável a perda de uma única vida, que poderia ser evitada se corrigíssemos todas as anomalias acima mencionadas. 

Luiz Flávio Gomes é jurista e diretor-presidente do Instituto Avante Brasil 
(www. institutoavantebrasil.com.br).

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