Psicanalista Lucianne Sant´Anna de Menezes analisa processo de precarização das relações de trabalho no Brasil

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Na obra “Psicanálise e saúde do trabalhador: os rastros da precarização do trabalho”, a psicóloga e psicanalista Lucianne Sant´Anna de Menezes traça uma interface original entre psicanálise, saúde e trabalho a partir do case de uma fábrica de manequins investigada pela Vigilância em Saúde do Trabalhador do Município de São Paulo. Com esse ponto de partida, a autora disseca a organização do processo produtivo sob a lente psicanalítica, revelando “uma montagem perversa, marcada pelo viés da servidão e sustentada por uma modalidade de manipulação do poder na contemporaneidade”.
 A obra, que integra o selo PSI da Primavera Editorial, será lançada no sábado, 1º de dezembro, a partir das 16 horas, na Livraria da Vila do Shopping Higienópolis (Avenida Higienópolis, 674 – Perdizes).
(…) “Eu me sinto como um cachorro. Logo vou embora porque a obra vai acabar. Só Deus sabe o que eu passo aqui. É por meus filos, para eles não morrerem de fome.” O depoimento de um ajudante-geral, coletado pela psicóloga Lucianne Sant´Anna de Menezes em uma obra da construção civil vistoriada pela Vigilância em Saúde do Trabalhador – órgão ligado à Coordenação de Vigilância da Saúde (COVISA) e à Secretaria da Saúde da Cidade de São Paulo (SMS) – denuncia que embora haja evolução nas relações de trabalho no Brasil ainda existem práticas que reduzem o ser humano à condição primária de sobrevivência, submetendo o indivíduo a situações degradantes e desumanas. O relato integra o livro Psicanálise e saúde do trabalhador: os rastros da precarização do trabalho, resultado da pesquisa realizada entre 2006 e 2010 no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). A obra, que integra o selo PSI da Primavera Editorial, será lançada em 1º de dezembro, a partir das 16 horas, na Livraria da Vila do Shopping Higienópolis (Avenida Higienópolis, 674 – Perdizes).
O livro traça uma interface original entre psicanálise, saúde e trabalho a partir do case de uma fábrica de manequins investigada pela Vigilância em Saúde do Trabalhador do Município de São Paulo. Com esse ponto de partida, a autora dissecou a organização do processo produtivo sob a lente psicanalítica, revelando “uma montagem perversa, marcada pelo viés da servidão e sustentada por uma modalidade de manipulação do poder na contemporaneidade”. O consumo sem limites, a face oculta das formas de dominação, a realidade da exploração e os riscos aos quais muitos trabalhadores são submetidos – em uma violência não declarada – são alguns dos importantes temas debatidos em Psicanálise e saúde do trabalhador: nos rastros da precarização do trabalho.
No prefácio do livro, Miriam Debieux Rosa, professora titular do Programa de Pós-Graduação da Psicologia Social da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e professora doutora do Programa de Psicologia Clínica da Universidade de São Paulo (USP), destaca a opção de Lucianne Sant´Anna de Menezes por traçar um paralelo entre o shopping center, espaço de lazer e consumo mais glamuroso e dito seguro das grandes cidades, e o manequim. Para a autora, a figura do manequim – figura de corpo que apoia as roupas da moda – serve de alegoria para revelar a outra face da produção da mercadoria, particularmente o modo como a precarização do trabalho expõe o trabalhador à perda da saúde e morte precoce.
(…) “Traça um fio entre o templo do consumo e a pequena e insalubre fábrica de manequins, metáfora para pensar as subjetividades submetidas ao chamado discurso do capitalismo. Um preço que muitos pagam submetidos a uma ordem caracterizada pelo desamparo, pulsão de domínio e servidão, conceitos psicanalíticos que permitem à psicanalista Lucianne Sant’Anna de Menezes tematizar, descrever, fotografar e analisar a face oculta da subjetivação na contemporaneidade, o avesso invisível protagonizado por personagens reais. Elucidar as estratégias de poder e os impasses do sujeito contemporâneo nestes tempos sombrios, apontando para algumas das consequências desse poder para o sujeito no capitalismo avançado, pode contribuir para apontar as ilusões do modo de vida preponderante e, quem sabe, contribuir para abalar a alienação que caracteriza o sintoma social deste período.”
Segundo a autora, a montagem perversa fomenta o que há de pior na civilização: a destruição da alteridade, os mecanismos de exclusão e dominação, a violência, a agressividade, a humilhação e a servidão que precisa ser denunciada sempre. “Este livro é uma tentativa, nesse sentido, tendo em vista que desvelou mecanismos de dominação perversa em relação à saúde do trabalhador. Espero que a psicanálise possa ter trazido alguma contribuição não só para seu patrimônio como para os debates a respeito do complexo processo de precarização do trabalho e para as relações da saúde com o processo de produção”, salienta Lucianne.
TRECHOS DO LIVRO
Página 20
Introdução
(…) “O encarregado da obra subia e descia a rua, vigiando os trabalhadores e dizendo o que deveriam ou não fazer e como fazer. Essa era a única preocupação: a calçada. Qualquer semelhança com capataz de escravos em fazendas, no século XIX, não terá sido mera coincidência, tendo em vista a marca de país escravocrata que carregamos e repetimos. Escravidão travestida na metrópole  de São Paulo e pior, com o seu consentimento, o meu e o da prefeitura, porque é uma obra pública, apesar de ter sido terceirizada, sob licitação, para uma empreiteira particular. E as pessoas que passam na rua? Ninguém se dá conta de nada…”
Página 31
Precarização do trabalho
(…) “No contexto brasileiro, a precarização do trabalho tem suas especificidades em relação a outros contextos como o europeu, principalmente, por conta do processo de conformação das políticas sociais e das instituições de bem-estar no Brasil. Processos históricos como a constituição do Estado nacional, a conformação das instituições estatais e das ideologias nacionais e processos políticos como a ditadura militar, acabaram por determinar as características sociais que influenciam no conteúdo das políticas sociais brasileiras.”

Páginas 87 e 88
A pequena fábrica de manequins
(…) “ressalto dois aspectos: o primeiro diz respeito à condição de risco encontrada na pequena fábrica, que pode ser pensada como uma banalização do risco, em que o processo de risco à saúde do trabalhador se transforma em prática cotidiana, o que é característica da nossa sociedade atual, de modo que pode tender a naturalizar-se no imaginário social. Não é o intuito desta pesquisa aprofundar a questão da banalização do risco à saúde do trabalhador, apenas marcar que sua existência pode ser compreendida como um dos efeitos da precarização do trabalho no Brasil. Entretanto, a questão da ‘naturalização’ do risco no ambiente de trabalho, nos remete ao segundo aspecto, que será priorizado neste estudo: A submissão do trabalhador a uma condição de trabalho precária, que lhe foi imposta pela maneira como está estruturada a organização do trabalho.
 Em conversa com o encarregado dos trabalhadores, descobrimos que a pequena  fábrica fornece manequins para várias lojas da rua ‘25 de Março’ e para vários shoppings da cidade de São Paulo, inclusive de classe alta.  A ‘Fábrica de manequins’ expressa os efeitos das relações que se estabelecem em uma cadeia produtiva. Mais especificamente, das relações entre as grandes empresas e seus fornecedores, os quais estão longe de serem ‘parceiros’, tendo em vista que nesta relação prevalece a pressão pela redução de custos, as leis do ‘mercado livre’, dominado pelas empresas que detêm o capital, podendo levar a uma forma precarizada de produção e aumento dos riscos para a saúde do trabalhador.”
Página 88
(…) “A autora mostra que, ao longo da cadeia produtiva, ocorre um processo de precarização do trabalho. Nas empresas que estão nos últimos elos da cadeia, geralmente, os trabalhadores são mal pagos, não têm registro em carteira de trabalho e trabalham muito mais. Suas pesquisas têm mostrado que o trabalho tende a diminuir nas grandes empresas – que estão no topo da cadeia e onde o trabalhador é mais bem pago e melhor qualificado – e a aumentar nos últimos elos da cadeia, onde o trabalhador é mal pago, com pouca qualificação e muitas vezes sem registro em carteira de trabalho. Exatamente o quadro que encontramos na ‘fábrica de manequins’. Isso significa que todas as lojas, para as quais a pequena fábrica fornece seus manequins, são corresponsáveis na produção e reprodução do trabalho precarizado, tendo em vista que o interesse recai sobre o preço do produto final, o manequim, e não sobre a dinâmica do processo de produção, sobre as condições de trabalho e da saúde dos trabalhadores que o produzem.
Sob o ponto de vista psicanalítico, como estão os circuitos do desejo em ‘fábrica de manequins’? Quais as especificidades do mecanismo psíquico em jogo? Podemos pensar que a cadeia produtiva revelaria uma ‘montagem perversa’?”
 Página 94
Os ‘trabalhadores manequinizados’ e a marca da servidão
(…) Recordemos a cena impactante ao entrar no setor produtivo: quem é ser humano e quem é manequim?! Trabalhadores e manequins se misturavam e se confundiam. Como metáfora, vou denominá-los de ‘trabalhadores manequinizados’.
Chamaram minha atenção a resignação e a docilidade daqueles homens àquela situação. Desempenhavam suas tarefas com ‘naturalidade’, como se eles tivessem nascido para aquilo. Quando perguntei sobre suas condições de trabalho,
responderam:
— Ah… aqui… Tá bom né, não tô desempregado. É… porque no fim da semana eu tenho dinheiro pra levar pra casa. Pra mim tá bom. Eu tenho trabalho.
Parecia uma falta de vontade de transformação:
— Está tudo bem.
Como podia estar tudo bem naquele lugar? O que faz com que esses trabalhadores vivam esse tipo de situação com ‘naturalidade’?
 Do ponto de vista da psicanálise, qual o mecanismo psíquico em jogo na ‘naturalização’ do processo de precarização das condições de vida e de trabalho? Qual o funcionamento psíquico operante nos trabalhadores?
 Quando pedimos para fotografar, os trabalhadores faziam pose e sorriam (fotografia 36). Uma das técnicas da VST-COVISA disse:
 — Vocês sabiam que essa poeira, essas condições de trabalho, a situação aqui, faz mal para saúde de vocês? A negativa foi geral. E continuava a técnica:
 — Então, pode provocar doenças, por exemplo, no pulmão, inclusive câncer.
 Não houve espanto:
— Não, não sabia não. Nunca nem pensei nisso. Ninguém nunca falou nada pra gente. É mesmo, é?!
 Não havia revolta. Aqueles trabalhadores estavam ali tentando sobreviver…”
 AUTORA
 Lucianne Sant’Anna de Menezes
Psicóloga e psicanalista, Lucianne Sant’Anna de Menezes é mestre e doutora pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP); docente do Instituto de Psicologia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU); e membro efetivo do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae – no qual participa tanto do Conselho Editorial da revista Boletim Formação em Psicanálise como da Comissão de Publicação deste departamento. Entre 2005 e 2011, Lucianne foi autoridade sanitária na Vigilância em Saúde do Trabalhador da Coordenação de Vigilância em Saúde (COVISA) da cidade de São Paulo. É autora dos livros Pânico: efeito do desamparo na contemporaneidade. Um estudo psicanalítico (Casa do Psicólogo/FAPESP, 2006) e Desamparo(Coleção Clínica Psicanalítica/Casa do Psicólogo, 2012, 2ª ed), além de artigos científicos.
 FICHA TÉCNICA
 Categoria: Psicologia
Acabamento: Brochura 
ISBN: 978-85-61977-43-6
 PRIMAVERA EDITORIAL
 Com a proposta de ser uma “butique de livros”, a Primavera Editorial estimula o hábito da leitura com conteúdos prazerosos, inteligentes e instrutivos. Investir em novos autores nacionais e estrangeiros tem sido uma das estratégias adotadas pela editora. Com diferentes linhas editoriais como romances históricos e sociais, ficção brasileira e estrangeira e policiais, as obras editadas são associadas à inovação e ao pioneirismo dos conteúdos, além da qualidade da produção gráfica.
As obras de ficção oferecem a possibilidade de “viver emoções” que não fazem parte do “enredo” cotidiano dos leitores; os livros publicados pelos selos EDU, BIZ e PSI são instrumentos de aprimoramento pessoal e profissional. A Primavera Editorial é presidida por Lourdes Magalhães.

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