CONVITE TROPEIRISMO

13:59 Radio Ideal FM 0 Comentarios





Tropas e Tropeiros

Há poucos dias atrás, conversava sobre tropeirismo com meu amigo Francisco Pinto, pessoa apaixonada pela cultura popular brasileira, e ele me confidenciou um sentimento seu, me disse: Cruz, adoro cavalos, mas não sei por qual razão fico louco mesmo é ao ver passar por mim uma mula, bem tralhada: arreio bastos, peiteira com argolões. Fico hipnotizado, meu amigo. Como isso se explica? Ora, como poderia eu explicar ao amigo um sentimento que também tenho, minha preferência pela mula, como animal de montaria, é sabida por todos. Isso me fez refletir sobre os motivos dessa paixão: a mula, nos idos tempos em que nossa terra era cortada por tropas e tropeiros, era o caminhão, o carro, o trator e o motor de toda e qualquer máquina. Tudo era movido pela tração animal, e esta ficava ao encargo de burros e mulas, que são animais resistentes ao trabalho pesado.
Atrás desses resistentes animais, que eram criados em abundância ao sul do Brasil, no Uruguai e Argentina, ainda no 1700, foram os paulistas destemidos. Abriram caminho, a golpes de facão, por entre campos, serras e montanhas, de Sorocaba até Viamão, no Rio Grande do Sul. Estabeleceram uma ligação que ficou conhecida como Caminho das Tropas, ou Caminho do Viamão, por onde subiam as tropas xucras, que seriam vendidas na grande Feira de Muares que nasceu em Sorocaba. A esta cidade acorriam comerciantes tropeiros de todo o Brasil. Ali é que obtiveram os animais para virar a moenda do engenho de cana-de-açúcar, para carregar o ouro que descobriram nas Minas Geraes e, tempos depois, o café, que enriqueceu os Barões Paulistas e tornou possível a entrada do nosso Brasil na era industrial. Olha só! Como uma mulinha humilde, mas forte e resistente, ajudou a mudar esse país.
No vai e vem das tropas xucras, dos pontos de descanso e pouso nasceram povoados, que se tornaram vilas e depois cidades. Esse povo todo que hoje mora nessa nossa região tropeira, aonde está nossa Boituva, pode até não saber, mas aqui está por conta dessa mulinha, modesta e trabalhadeira, que no seu lombo nos trouxe o progresso.
Fui contar a história da mula e acabei contanto a história da economia brasileira e de como nasceram nossas cidades. Contei a história da gente. Pensando bem, meu amigo Francisco, acho que sei a razão desse amor pela mula. Esse seu transe hipnótico que tem ao ver uma mula passar talvez venha a saudades dos pousos de nossos avós, bisavós e além. Uma saudade ancestral, que ficou gravada em nosso inconsciente coletivo, lá no fundo de nossas entranhas. A mula faz parte de nós, parte de nossa terra, de nossa gente. 

Isael P. Cruz
(CRUZ DO GESSO)


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